SÃO PAULO

18 FEVREIRO

A Conferência sobre Educação, Tecnologia, Conteúdo e Mundo Editorial realizada nesta terça, 18/02 no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, trouxe um rico painel de debates com especialistas internacionais e nacionais. Com visões, trabalhos e projetos diferentes, todos concordaram que a educação digital é uma necessidade e o caminho agora é aprender a lidar com ela.
O tema central O futuro da aprendizagem interativa, da Contec Brasil realizada nesta terça-feira, 18, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, revelou que, na verdade, o importante é encarar a questão no presente, aceitar as mudanças, buscar modelos adequados e aprender a lidar com as inovações. Realizada pela Feira do Livro de Frankfurt em parceria com o Sesc, com patrocínio da Editora Saraiva e da HP e o apoio da Edições SM, a segunda Contec de 2014 está programada para esta quinta, 20, na Unilasalle, em Canoas, no Rio Grande do Sul.
Diferente das edições anteriores de 2013 e 2012, desta vez os editores foram maioria entre os inscritos. Pelo gráfico das inscrições, foram apenas 20% de educadores inscritos para 70% de editores e profissionais da área editorial (administração, marketing, design, comunicação e produção) e 10% da área de tecnologia.
Marifé Boix García, vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt, comentou com entusiasmo os resultados: “Ficamos muito felizes com as inscrições esgotadas, com o interesse demonstrado pelos editores e lamentamos que poucos professores tenham tido a oportunidade de participar. Percebemos que há uma certa preocupação das secretarias da Educação em dispensar os professores para participarem do evento. Pena que poucos aproveitaram para conhecer a opinião dos especialistas e acompanhar os debates de temas tão atuais como aprendizado interativo, as ferramentas que estão revolucionando as formas de ensinar, as dificuldades para garantir e ampliar o acesso a este novo mundo digital, os diversos modelos de aprendizagem, a geração do compartilhamento, os jogos na escola e o acompanhamento dos alunos neste novo tempo. Sabemos, no entanto, que os resultados na escola dependem da interação das crianças com os professores. A tecnologia poder facilitar o aprendizado e ajudar a ganhar maior atenção dos alunos, mas para estar pelo menos na mesma altura é indispensável que os educadores dominem as ferramentas tecnológicas”.

fittosize__230_160_48d53084e84524c4e1b507b456110d9a_saopaulo2-2Danilo Santos Miranda, diretor regional do Sesc, enfatizou a necessidade de utilizar a tecnologia no processo educacional, enfrentando os desafios: “Temos que estar abertos às novas possibilidades trazidas pela tecnologia. Que venha o novo!”. O presidente da Feira do Livro de Frankfurt, Juergen Boos, justificou a realização da Conferência no Brasil “Temos realizado várias ações, temos background nessa área e com a Contec queremos compartilhar as nossas experiências .Estamos muito felizes de estar hoje aqui com vocês”.
SÃO PAULO, BRASIL - 18 de Fevereiro de 2014: CONTEC Brasil (Foto por Daniel Vorley/Getty Images).
No painel (R) Evolução do coonteúdo: as últimas novidades em aprendizado interativo, Michael Ross, vice-presidente senior e gerente geral da Britannica Digital Learning, divisão de educação de Encycloepaedia Britannica, foi taxativo: “Estamos todos preocupados em ensinar e aprender, mas a forma e o meio estão mudando rapidamente. Todos queremos uma cidadania educativa e para isso é preciso estar aberto às mudanças. Os estudantes de hoje são os nativos digitais e todos os que têm mais de 25 anos podem ser considerados imigrantes nesse mundo. As editoras, as escolas, pais e professores precisam se adaptar a essas mudanças. De alguma maneira vamos manter o pé no passado, mas precisamos eliminar a exclusão digital”.
Heather Crossley, editora do selo Ladybird da editora britânica Penguin, explicou que a empresa quer fornecer conteúdos para todas as idades no painel O “novo” sempre quer dizer “melhor“. No coração de tudo o que a gente faz está a vontade de contar histórias. Se a criança não lê, não consegue aproveitar o seu potencial completo, não pode aproveitar o que a vida tem a lhe oferecer. Tanto o livro físico quanto o digital trazem experiências para as crianças”. Udi Chatow, gerente de desenvolvimento de negócios mundiais em educação da HP, expôs a visão da divisão de educação da empresa, um modelo híbrido, que combina as melhores possibilidades do modelo impresso aos aplicativos e outras tecnologias digitais. “Muitas vezes imprimir ainda é a melhor solução. Sabemos que os leitores leem mais rapidamente e a compreensão é melhor através de materiais impressos, preferidos pela maioria dos estudantes”. Colin Lovrinovic, gerente internacional de vendas da editora alemã Bastei Lübbe, disse que ainda estão trabalhando para entender o que os leitores estão procurando hoje:“Pegamos o mesmo livro e fazemos versões em e-books, apps e áudio”. Para Dolores Prades, editora da revista nacional Emília, temos um longo caminho pela frente: “Ainda não há bibliotecas em muitas cidades, mas é positivo que a tecnologia esteja sendo inserida nas escolas públicas”.
CONTEC BrasilA doutora Lucia Dellagnelo, coordenadora da Educação do Tec Project, Brasil, enfatizou que estamos buscando novas soluções para velhos desafios intrínsecos ao processo de aprendizagem. Segundo ela, a internet trouxe muitas transformações e desafios para o setor educacional, mas faz uma ressalva: “Se compararmos com outras instituições, a escola não sofreu tantas mudanças, mas temos que pensar em um novo ecossistema em que pesquisadores, desenvolvedores de tecnologia e professores trabalhem dentro da escola. O acesso rápido à informação e à inovação mudaram, mas o processo de aprendizagem pode ser realizado em qualquer momento e em qualquer lugar”. Ela participou da mesa Tendências na Educação. A sociedade muda rapidamente, e a educação?.
A geração do compartilhamento: aprendizado e mídia social foi o último painel do dia da Contec realizada no Sesc Vila Mariana. Participaram o chefe de pesquisa da Edmodo, Vibhu Mittal, e de Brasiliana Passarelli, da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP). Como mediador atuou o jornalista e blogueiro Sergio Pavarini. Brasiliana discorreu sobre a revolução trazida pela internet, “com ambiente multimídia e narrativas não lineares, normais para os nativos digitais mas não para os imigrantes digitais. Quando criamos conteúdo para tablets em escolas, não basta apenas pensar no conteúdo, mas também em uma logística de por quanto tempo os alunos vão acessar o conteúdo e de que forma”.

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CANOAS

20 FEVREIRO
CONTEC BrasilJuergen Boos, presidente, Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, deu as boas-vindas aos participantes: “Hoje temos muita sorte de estar aqui para contribuir com um debate para mostrar como criar o interesse dos jovens pela leitura, que é um compartilhar de ideias, além da fala. É a segunda vez essa semana que realizamos esta Conferência. Primeiro em São Paulo e foi muito empolgante a troca de ideias. Conversem uns com os outros, troquem ideias entre vocês e compartilhem experiências. Bem-vindos!”.
O prof. dr. Paulo Fossatti, reitor da Unilasalle, saudou os educadores presentes e comentou: “Um evento como esse, que promove a educação, sempre terá portas abertas da Unilasalle para que possamos continuar juntos construindo um país e um mundo melhor através de educação de qualidade. Estamos unidos nessa luta!”.
O secretário estadual de Cultura, Luís Antônio de Assis Brasil, ressaltou: “Nosso Estado apresenta um dos melhores índices educacionais do Brasil e está dando grandes passos para que essa educação se articule com a inclusão digital. Novos paradigmas de ensino e de aprendizado são necessários, como a possibilidade de articular o presente e o passado, o presencial e o digital de maneira a não se perder o que há de positivo nesses dois mundos”.
O prefeito de Canoas, Jairo Jorge da Silva, disse que só a educação pode fornecer bússolas e novos mapas para navegar em um porto seguro: “É uma honra receber a Contec Brasil que tem lançado novos olhares sobre a educação, a aprendizagem e a tecnologia. Este encontro será para todos nós como um farol, que com suas luzes nos dá esperança de chegarmos ao nosso destino.”
CANOAS, BRASIL - 20 de Fevereiro de 2014: CONTEC Brasil (Foto por Vinícius Costa/Getty Images)
O impacto do avanço tecnológico no mundo atual deve ser enfrentado com parcerias. Charles Schramam, da KPMG Brasil, graduado em Administração de Empresas/PUC-SP com especialização em Desenvolvimento Econômico Local pela London School of Economics, trouxe experiências inovadoras e comentou: “O mundo, a tecnologia e a sala de aula mudam rapidamente. Hoje o jovem é conectado com o mundo o tempo todo. Temos alunos que convivem com os avanços da cultura digital. E não estamos falando de poder econômico. Não dá para imaginar esse mundo desconectado e acredito que o sistema educacional deve se ocupar desse tipo de tecnologia”.
Novas tecnologias estão revolucionando métodos de ensino e impactando alunos e professores na sala de aula. Para debater o tema foram convidados Jolanta Galecka, especialista em Marketing Online, Young Digital Planet, da Polônia; Sean Kilachand, diretor de Operações, EduSynch, Brasil; Junko Yakota, diretora do Center for Teaching through Children´s Books, dos Estados Unidos, com moderação de Daniel Bittencourt, presidente, Voice over Portuguese, Brasil. Jolanta disse que os professores não devem ter medo de usar a tecnologia: “Dê pequenos passos, assim você terá resultados, se sentirá melhor e poderá tentar coisas maiores”.
CONTEC BrasilAnna Penido, do Inspirare, do Brasil, e o jornalista André Gravatá, coautor de “Volta ao mundo em 13 escolas”, também do Brasil, participaram da sessão interativa sobre novas práticas baseadas na autonomia, cooperação e criatividade, com moderação de Maria do Pilar Lacerda, da Fundação SM, Brasil. Anna disse que os jovens querem uma educação que desenvolva a criatividade e a capacidade de inovação para atender às mudanças. “Podemos aprender a todo momento e a tecnologia é parte da vida desses jovens, é um instrumento que deve ajudá-los a se realizar e a ser felizes. A educação não é para ir bem na prova, tem que ser para ir bem na vida”.
Onde termina a diversão e começa o aprendizado? Jorge Proença, cofundador do Kiduca, Brasil; Nick Eliopoulos, editor do “Infinity Ring”, Scholastic, USA, Carminha Branco, diretora editorial da Saraiva, Brasil, participaram do painel com moderação do jornalista brasileiro Sergio Pavarini. Carminha Branco alertou que a nossa época impõe o uso da tecnologia: “Se a escola se afasta ou rejeita a exigência que o contexto social e histórico está impondo, amplia a distância da atualidade. Para que a escola continue conversando com crianças, jovens e adultos que precisam estar imersos nesse processo é necessário dialogar com seu tempo, incorporar as ferramentas”.
Udi Chatow, especialista em educação da HP, e Mauricio Ferreira, líder de Marketing Direto e Publishing na HP Indigo, compartilharam sua visão sobre o futuro do aprendizado e a transferência de conteúdo.
Michael Ross, general manager of Education, Encyclopaedia Britannica, USA, Heather Crossley, publisher, Ladybird (Penguin UK), UK, e Colin Lovrinovic, gerente Internacional de Vendas, Bastei Lübbe, Alemanha, falaram sobre os novos formatos de livros e mídias. O prefeito de Canoas, Jairo Jorge da Silva, foi o moderador. Colin destacou que é preciso entender que não é possível pegar um livro, torná-lo digital e entregar. “É preciso desenvolver conteúdos específicos e formatos para as necessidades específicas. Queremos alcançar o maior número possível de pessoas, pessoas com diferentes experiências e necessidades, enfim, dar uma experiência.
As fronteiras digitais nos países da América Latina e outras regiões, as novas ferramentas disponíveis para professores e alunos e os desafios foram os temas do painel em que participaram Octavio Kulesz, publisher, Editorial Teseo, Argentina; David Sánchez, 24symbols, Espanha; e Flavio Aguiar, Widbook, Brasil, com moderação de Jéfferson Assumção, secretário-adjunto da Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul, Brasil. Para Octavio, é importante a diversidade de dispositivos, mas desde que tenham utilidade e conteúdo de qualidade. “Nossa missão como editora é nos atualizarmos, inclusive com coisas que muitos chamam de invasão estrangeira como o conhecimento web e as novas linguagens que muitas empresas trazem. Isso está na base do editor do presente e não do editor do futuro”.
Do ponto de vista educacional, como os professores, pais e pessoas que estão tomando decisão podem saber o que funciona no mundo digital? Junko Yokota, diretora do Center for Teaching through Children’s Books, diz que é preciso tomar decisões pensando no que é importante para as crianças. “O mundo digital permite experiências que são impossíveis no impresso. Às vezes, a criança poder apertar um botão e mudar os personagens. Ela pode ser incluída dentro do livro, acrescentar um personagem na história. Um livro impresso muito bom também pode ser muito bom no mundo digital.”
Entrevista de Justo Hidalgo

Livros digitais por assinatura, um mercado em expansão
“Eu amo livros”. Quem diz isso é Justo Hidalgo, sócio-fundador da 24symbols, um serviço de assinatura que permite que as pessoas leiam livros digitais a partir de um catálogo internacional e multieditorial na nuvem e em dispositivos móveis. A paixão e o respeito pelo livro impresso continuam, mas ele, melhor do que ninguém, sabe que os tempos estão mudando e que o mercado de serviços de assinaturas de livros digitais está apenas começando: “Temos todo o espaço do mundo para crescer”, diz. A empresa foi fundada em 2010 e atualmente tem mais de 300 mil usuários cadastrados e mais de 20 mil títulos de autores de vários países como Espanha, México, Argentina, Chile, Itália, Reino Unido e Estados Unidos, entre outros. O catálogo continua aumentando, tanto em espanhol como em outros idiomas. O interesse maior vai para obras de ficção comercial e não ficção, novelas, poesia e livros de gestão principalmente. Doutor em Engenharia da Computação, ele é professor nas áreas da tecnologia, estratégia de produto e inovação em universidades e escolas de negócios, membro da Internet Society e mentor/orientador de outras startups. Justo e a 24symbols participarão da Contec Brasil 2014, em fevereiro, em São Paulo. Ele acredita que o evento será uma ótima oportunidade para apresentar a empresa e o serviço para um público formado por educadores, editores, escritores e mídia. “A Contec 2014 se encaixa perfeitamente neste momento em que estamos negociando com editoras brasileiras. A simples ideia de que um único dispositivo permite o acesso a toda a literatura necessária para a educação básica, a literatura infantil ou livros da faculdade, é fascinante”, afirma.

Há quanto tempo existe a 24symbols?
A empresa foi fundada em abril de 2010 por quatro sócios e o trabalho começou no final desse mesmo ano. O serviço foi lançado em versão beta em meados de 2011.

Como surgiu a ideia?
Os sócios eram companheiros de trabalho que compartilhavam o mesmo interesse por livros. Inicialmente pensamos em começar um projeto editorial em tempo parcial, mas depois vimos que não tínhamos experiência suficiente para isso. Mas logo veio a ideia de criar um "Spotify dos livros" (Spotify é um aplicativo de streaming de músicas online disponível para uma variedade de plataformas). Após a confirmação de que não havia um serviço semelhante, mas que o tema despertava muito interesse e discussão na indústria, decidimos que era um projeto que se encaixava com as nossas preocupações, os nossos interesses e nossa experiência. Vimos que, apesar dos riscos envolvidos, era algo que, com a nossa experiência na construção de produtos de tecnologia internacionais, algum investimento e esforço, era uma oportunidade para nós. Acreditamos que a tendência é clara e inequívoca e que desde a posse de produtos culturais e de entretenimento, como músicas ou filmes, ao seu consumo como serviços (como vemos com Spotify e Deezer na música, ou Netflix, Filmin e Wuaki no cinema), também deve ocorrer na indústria editorial. Com suas diferenças, mas também com suas semelhanças como um produto cultural. E desde então temos a convicção absoluta de que o foco está na experiência do leitor ao utilizar nossos aplicativos, ler e partilhar os nossos livros.

Como funciona?
Na 24symbols oferecemos um serviço de assinatura mensal, trimestral ou anual, que permite ler pela Internet livros eletrônicos comerciais, de diversas editoras e de alta qualidade, sem precisar baixar nenhum dispositivo especial. Além disso, estamos agora começando a lançar os nossos serviços por meio de operadoras de telefonia celular. Nestas próximas semanas vamos anunciar nossa entrada em alguns países e depois ampliaremos para outros da América Latina, Europa, África e Sudeste Asiático. A pessoa que quiser conferir como funciona a 24symbols só tem que visitar nosso site www.24symbols.com e se cadastrar gratuitamente, diretamente ou com o seu Facebook ou Google+. Então terá acesso ao conjunto de todo o nosso catálogo, com alguma publicidade, e pode acessar por meio de um dos nossos aplicativos para iPad, iPhone, Android, via versão "mobile" ou em um desktop ou laptop. Se gostar do serviço e quiser ler um catálogo mais abrangente, com grandes sucessos e com a capacidade de ler sem uma conexão com a internet (em um avião, metrô ou no campo), você pode assinar por um mês, três meses ou um ano, a um preço muito acessível. Sempre pode, se desejar, partilhar os seus livros favoritos em mídias sociais, criando prateleiras virtuais que os outros podem seguir, tornando-se uma estante. Acabamos de lançar novas versões de nossos aplicativos para iPhone e Android, com um novo design e nova leitura e recursos de compartilhamento.

A empresa tem sede fixa?
Sim, ela tem. Por alguns meses tivemos que trabalhar em nossas casas, em cafeterias etc. Depois da assinatura da segunda rodada de investimentos, no início do ano, precisamos aumentar a equipe e por isso hoje temos um espaço nos arredores de Madri, na Espanha.
Quantos sócios e quantos funcionários na equipe?
Estamos em pleno crescimento, no entanto, no momento desta entrevista, somos umas 20 pessoas, quase todas em Madri. Somos quatro sócios-fundadores e aproximadamente seis pessoas da equipe técnica, dois na equipe de design e criação, três na área de conteúdo e suporte, um no setor de desenvolvimento de negócios, um profissional do financeiro e duas pessoas de aquisição de conteúdo em Buenos Aires. Merece menção especial Julieta Lionetti, especialista editorial há muitos anos, com projetos de sucesso nos dois lados do Atlântico, que foi incorporada como diretora de relações editoriais.

Quanto usuários e de que países?
Hoje temos 300 mil usuários registrados, provenientes principalmente da Espanha, México, Argentina, Colômbia, Reino Unido e Estados Unidos

Qual é a vantagem da leitura na nuvem?
Além do que já foi dito sobre a tendência dos usuários digitais que não querem possuir bens digitais, mas consumir sem armazenamento, a leitura na nuvem tem muitos benefícios para os usuários:
1. Para ler qualquer livro instantaneamente;
2. Poder alterar o dispositivo sem ter que se preocupar com quais livros estão armazenados. Ele altera o dispositivo, entra na 24symbols e tem acesso a todo o seu catálogo disponível.
3. As notas, comentários e outras informações de cada leitor também ficam armazenados na nuvem, não há como perder.
Para o editor também tem muitas vantagens. Talvez a principal é que o acervo do livro não se descarrega nos dispositivos do usuário, tornando-o muito mais seguro em termos de acesso ilegal ou controlado para o conteúdo.

O serviço é adaptado a todos os navegadores?
Sim. Oferecemos um leitor na nuvem, eficiente e seguro, disponível para navegadores de desktop, com uma aplicação nativa iOS para iPad e iPhone, uma aplicação nativa para tablets e celulares Android. Temos também um aplicativo HTML5 de alta qualidade para qualquer outro tipo de celular.

Quantos títulos a 24Symbols oferece? Quais os gêneros?
Temos 20 mil títulos e aumentamos esse catálogo continuamente, tanto em espanhol quanto em inglês, italiano, etc. Nosso foco são os livros trade de ficção e não-ficção. Romances, poesias, livros de negócios, etc.

Quem seleciona os títulos?
Negociamos com as editoras e são elas que nos oferecem o catálogo. Depois trabalhamos em parceria com elas para selecionar os títulos de destaque. Falamos com todo tipo de publicações e agregadores.

Qual a preferência dos leitores?
Todos os gêneros se bastante lidos, embora a novela histórica, os romances, as biografias e os livros de autoajuda sejam os mais acessados. O interesse tem variado. Geralmente os mais procurados são os best sellers, ainda que de vez em quando apareçam livros menos conhecidos ou de domínio público.

Há alguma previsão para os livros brasileiros entrarem no site?
Preparamos nossos primeiros lançamentos com as operadoras de celulares na América Latina e Europa. A Contec 2014 se encaixa perfeitamente neste momento em que estamos negociando com editoras brasileiras para um lançamento no Brasil em breve.

Há um tipo de contrato com autores e editoras?
Nossos contratos são com as editoras. Só em casos muito especiais negociamos com autores, como, por exemplo, quando só eles têm os direitos digitais de suas obras e não vão cedê-los a editoras em curto prazo.

Vocês têm parceiros?
Sim, temos parceiros tecnológicos como Colbenson, que nos fornece a tecnologia de busca. No entanto, o parceiro mais importante é Zed, companhia líder em distribuição de conteúdo digital a operadoras de celular. Temos firmado um acordo de distribuição da 24symbols através de operadores de celulares e o Zed nos ajuda a chegar a mais de 70 países em todo o mundo, de maneira que as operadoras ofereçam nosso serviço de leitura na nuvem para seus assinantes. É uma aposta muito ambiciosa e estamos trabalhando duro para concretizá-la.

O crescimento da empresa foi maior do que o esperado?
Foi o esperado. Criar um serviço de assinatura envolve a compreensão de que o crescimento é dividido em duas ou mais fases: obter uma base de usuários que vá crescendo pouco a pouco, que essa base de usuários convença editores a baixar seus livros e, finalmente, que tenha massa crítica suficiente e parceiros de qualidade para que o serviço comece a crescer em todo o mundo. Acreditamos que nos encontramos no início da terceira fase

Quais foram as maiores dificuldades?
Os primeiros passos são sempre difíceis . Em primeiro lugar, tomar a iniciativa de começar um negócio a partir de uma ideia, deixando empregos seguros e interessantes para abraçar uma aventura. Obter a primeira rodada de financiamento não foi muito complicado, as pessoas nos apoiaram desde o início, como quando tivemos que ampliar a cota de convites para testar a nossa versão alpha, de 5.000 para mais de 10.000 pelo grande número de pessoas que pediam. Mas a negociação com as editoras para emprestarem o seu próprio catálogo foi complicada. Este modelo de negócio é muito novo e foi difícil convencer os editores que ainda estão fazendo o salto para o digital para que também pensassem em modelos de assinatura e deixassem alguns de seus conteúdos livres para os leitores. Em muitos casos foi um grande salto. Aos poucos algumas editoras pequenas, médias e até mesmo de grande porte entenderam a proposta, se convenceram do produto e da equipe por trás dele e apostaram em nós. A segunda etapa de dificuldade já foi com o produto, número de usuários crescendo e alguns catálogos de qualidade. Mas, depois de muitos meses de incerteza sobre a parte financeira, mas muita motivação para a forma como o crescimento de nossa base de leitores e atividades tem aumentado a cada mês, conseguimos fechar essa fase no final de abril deste ano. Nesta nova etapa, a relação com as operadoras será fundamental.

Quais são os planos de expansão?
Estamos a ponto de lançar nosso produto em vários países importantes, o que também pode servir como base para firmar nossos serviços com as operadoras de celulares. Em seguida, pretendemos continuar a crescer na América Latina, Europa, África e Sudeste da Ásia, onde já estamos negociando com operadoras e editores de diferentes países.
Você acha que esse tipo de leitura afasta o leitor do livro impresso?
Acredito que os livros digitais e serviços de assinatura em particular podem atrair muitos leitores que entendem que nem tudo que não se precisa possuir tudo o que se lê. No entanto, não concordo com aqueles que dizem que o livro impresso vai morrer tanto no curto ou médio prazo. Nós sempre queremos ter em nossa casa aquelas obras que tenham nos emocionado ou impactado. Portanto, há uma compatibilidade entre os dois tipos de leitura. Leio um livro digital, me apaixono por ele e vou comprá-lo no papel, talvez em uma edição de alta qualidade, para ter e folhear ou reler à vontade, ou para dar a alguém especial.

Você acredita que é importante para os educadores conhecerem na Contec 2014 as inovações tecnológicas que podem ajudar no ensino e na aprendizagem?
Claro que sim. Embora a 24symbols não esteja centrada na educação, estamos trabalhando com escolas e outras instituições para simplificar o acesso à leitura por meio de novas mídias digitais. A simples ideia de que um único dispositivo permite o acesso a toda a literatura necessária para a educação básica, a literatura infantil ou livros da faculdade, é fascinante. Mas o mais importante é que uma vez que o livro digital está na "nuvem", podemos imaginar todas as possibilidades que podem ser criadas e que estão sendo criadas neste exato momento.

Como você vê a participação dos editores nesse processo de atualização digital?
Os editores já perceberam que esse processo de acesso digital à literatura e ao conteúdo editorial geral não tem volta. No último ano tenho visto maior aceitação por parte da indústria, o que foi comprovado pelo aumento do conteúdo digitalizado e pela porcentagem das compras feitas em mídia digital e leitura digital. Eu acho que ainda há um passo adicional, que é ver o mundo digital como algo que vai além da mera digitalização de livros destinados ao mundo da impressão. Já existem experiências de startups, autores e até mesmo alguns dos principais Grupos Editoriais, que estão nos ajudando a entender melhor o que a indústria editorial pode oferecer aos leitores num futuro próximo. Precisamos de muito mais interesse e envolvimento por parte das editoras, mas estamos nesse novo mundo.

Entrevista de Colin Lovrinovic

Entusiasmado com a possibilidade de conhecer o Brasil e compartilhar as novidades de sua empresa, Colin Lovrinovic tem convicção que os produtos digitais oferecem uma experiência de aprendizado completamente diferente. Conceitos de aplicativos móveis especialmente desenvolvidos podem mudar a maneira como aprendemos hoje. Na Contec 2014 ele falará sobre os diferentes tipos de conteúdo oferecidos e ressaltará aspectos educacionais específicos e produtos criados para crianças. “Eu também estou ansioso para compartilhar nossos últimos projetos, entre eles nosso primeiro lançamento em português”, ele diz. Colin Lovrinovic é um gerente digital com oito anos de experiência em negócios de mídia no currículo. Além de se graduar em Negócio da Música e concluir um mestrado em Gerenciamento de Música & Indústrias Criativas, ele trabalhou em departamentos de marketing de empresas como Amazon, Red Bull e Universal Music. Antes de começar a atuar para a editora independente Bastei Lübbe, ele dirigiu o licenciamento global do primeiro serviço de assinatura de músicas da Alemanha, o Simfy, onde trabalhou em parcerias estratégicas com marcas líderes como Coca-Cola e ISP Telefónica O2. Atualmente, Colin é responsável pelo crescimento das vendas internacionais da Bastei Lübbe e pelo marketing dos aplicativos móveis multilíngues e e-books para novos públicos nos Estados Unidos, Reino Unido, China, América Latina hispanófona e Brasil. Mora em Colônia, na Alemanha, e participa de conferências sobre entretenimento digital em todo o mundo.
Qual será o tema do painel em que o sr. vai participar?
Eu tenho o prazer de participar de um painel intitulado “’Novo’ significa sempre ‘melhor’?”, onde falaremos sobre os prós e contras de novas tecnologias e o rompimento com formatos existentes que elas trazem.

Qual o foco de trabalho da sua empresa, a Bastei Lübbe?
A Bastei Lübbe é uma das maiores editoras comerciais da Alemanha. Eu trabalho em um departamento chamado Bastei Entretenimento, onde nosso foco é o desenvolvimento de produtos inovadores e crescimento internacional. Nosso objetivo é fornecer novas e emocionantes experiências de entretenimento digital para os consumidores.

Qual é a sua função como gerente Internacional de Vendas?
Eu sou responsável pelo desenvolvimento dos negócios internacionais. Meu objetivo é aumentar as vendas digitais em novos mercados estratégicos, como os Estados Unidos, Reino Unido, China, América Latina hispanófona e, claro, Brasil. Recentemente, começamos a contratar times de freelancers e parceiros de todas essas regiões, para nos ajudar a promover nossos aplicativos e e-books, idealmente para novos clientes. Todos esses esforços são coordenados pelo meu time.

Vocês trabalham com livros impressos e digitais. Como está esse mercado, comparando os dois produtos?
A Bastei Lübbe tem uma longa história de publicação de séries de ficção policial. Uma das nossas séries mais bem sucedidas, a de Jerry Cotton, já vendeu mais de um bilhão de cópias impressas. Então sempre fomos muito fortes no setor do livro impresso. Por outro lado, também fomos a primeira editora alemã a ter um forte departamento digital, que possui hoje mais de 20 empregados. Até o final desse ano fiscal, estamos visando 17% ou 18% de participação do digital na receita geral. Uma parte significativa disso são nossos aplicativos para celular, criados pelo nosso time de desenvolvimento.

Que tipo de conteúdo vocês produzem em materiais e produtos digitais. Vocês produzem para o mercado internacional?
Nós criamos aplicativos de celular para iOS, Android, Windows Mobile etc., além de e-books e várias séries de e-books. A serialização sempre foi muito importante para a nossa identidade.


Como somos uma editora alemã, a maioria dos nossos escritores são daquele país. Historicamente, nossos editores e tradutores sempre foram bem distribuídos e, desde que começamos a focar nos planos de expansão internacional, juntamos um time de mentes criativas do mundo inteiro. Esse ano, veremos obras de escritores nativos de todos os países mencionados acima.

Como são os seus projetos?
Nós trabalhamos em vários projetos estratégicos com parceiros externos, de indústrias como de transporte ou automotiva. A nossa visão é disponibilizar nosso conteúdo para o máximo de gente possível – em qualquer situação.
Como o senhor avalia os avanços dos produtos digitais voltados à educação?
Acredito que produtos digitais oferecem uma experiência de aprendizado completamente diferente. Conceitos de aplicativos móveis especialmente desenvolvidos podem mudar a maneira como aprendemos hoje. Aprender nunca foi tão fácil e divertido.

Sua empresa trabalha também com universidades?
Regularmente, nós damos discursos e aulas em várias universidades na Alemanha, para compartilhar nossa visão e trocar ideias com estudantes. Inclusive, meu primeiro contato com a Bastei Lübbe também foi quando eu ainda era universitário. Rita Bollig, chefe da Bastei Entertainment, fez uma palestra que me deixou muito curioso. Também já trabalhamos com grupos de estudantes em partes do nosso desenvolvimento de conteúdo. Por exemplo, um dos nossos próximos aplicativos vai ter uma trilha sonora que foi criada por um grupo de estudantes de música. Nosso trabalho com universidades definitivamente é algo que queremos intensificar nos próximos anos.

O senhor conhece o mercado editorial brasileiro?
Eu já conversei com muitos editores e pessoas da indústria digital do Brasil, então eu acredito que, até certo ponto, conheço o mercado editorial local. Mas, como essa vai ser a minha primeira viagem ao Brasil, estou animado para conhecer mais, em primeira mão, quando estiver aí.

Entrevista de Octavio Kulesz

Octavio Kulesz é diretor da Teseo, uma das primeiras editoras digitais da Argentina e da América Latina, e será um dos participantes da Contec Brasil - Conferência sobre Educação, Tecnologia, Conteúdo e Mundo Editorial - marcada para os dias 18 de fevereiro, no SESC Vila Mariana, em São Paulo, e 20 de fevereiro na Unilasalle, em Canoas, Rio Grande do Sul. Desta vez o tema será “O futuro da aprendizagem interativa”. As inscrições estão abertas pelo site www.contec-brasil.com. Kulesz elogia a iniciativa de Frankfurt em realizar a Contec Brasil: “A conferência abre um espaço valioso de discussão e profissionalização que toda região latino-americana poderá aproveitar”. Kulesz atua como pesquisador de temas relacionados a e-books, metadados e mídia social em economias emergentes. Em 2011 ele apresentou o relatório “Digital Publishing in Developing Countries” (disponível gratuitamente online) e, desde 2012, é um dos coordenadores do Digital Lab of the International Alliance of Independent Publishers, com sede em Paris. Octavio Kulesz considera a tecnologia um potente instrumento para o desenvolvimento educacional de um país, mas faz uma ressalva: “A tecnologia por si só não agrega nada. Na realidade, o uso inteligente, a seleção e a adaptação de ferramentas ao contexto particular do país é que poderão trazer benefícios para a comunidade”.

O sr. já participou da Contec Brasil. Quais são as inovações das redes sociais?
Nos últimos anos temos assistido à consolidação de redes mais potentes, como facebook e twitter, mas também surgiram novas redes. Eu estou me referindo a uma infinidade de microrredes e comunidades de nichos que são muito dinâmicas. É o caso do livro acadêmico, entre outros, que algum dia terá muita relevância, além do caso do Academia.edu, por exemplo. São comunidades menores e mais focadas nos temas.

Há pesquisas mostrando que alunos que usam mais a Internet ou redes sociais obtêm melhores resultados na escola?
Existem pesquisas que reforçam as duas conclusões. No entanto, geralmente eu penso que os melhores resultados na escola dependem, sobretudo, da interação (digital e analógica) do aluno com seus colegas e professores. Assim, o meio digital oferece um potencial de comunicação enorme, mas deve estar integrado de uma forma inteligente. Não devemos acreditar que a ferramenta por si só pode resolver todos os problemas.

Como entra a figura do professor nesse processo de interação?
O professor deveria possuir um profundo domínio das ferramentas tecnológicas. Os alunos estão muito mais familiarizados com estes instrumentos, graças ao uso intenso de redes sociais, blogs, videogames e programação amadora. Como sabemos, os principais problemas do mundo atual (nas áreas política, financeira ou científica) estão completamente ligados ao mundo digital. Desta forma, qualquer matéria escolar exigirá um professor muito capacitado em novas tecnologias, tanto para explicar como para utilizá-las.

A adesão das editoras aos modelos digitais continua menor do que o esperado ainda hoje?
O impacto do livro digital no mercado editorial latino-americano é, sem dúvida, mais lento do que em outras regiões. Porém, são inúmeras as editoras que já produzem e-books, desenvolvem plataformas, fazem parcerias etc. E os leitores estão mudando muito rapidamente. Podemos ver claramente essa situação na distribuição das vendas de Teseo: as vendas digitais de 2013 foram superiores às vendas de todos os anos anteriores somados. Tenho recebido comentários semelhantes de outros colegas do setor.

O que é necessário para ampliar o acesso ao livro digital?
Facilitar a aquisição de dispositivos de leitura, estimular a formação digital dos editores e autores, melhorar os meios de pagamento eletrônico, adaptar ao mercado livrarias online nacionais e regionais, desenvolver modelos de negócios sustentáveis para as editoras.

Como o senhor avalia a iniciativa de Frankfurt de realizar a Contec Brasil?
Para o mundo do livro e da educação, o tema digital é o mais urgente. Se o ignorarmos, enfrentaremos desafios consideráveis. Se o debatermos a fundo, descobriremos oportunidades gigantescas. A Contec Brasil abre um espaço valioso de discussão e profissionalização que toda região latino-americana poderá aproveitar.

Entrevista de Michael Ross

Por que a Enciclopédia Britannica escolheu investor no mercado educacional brasileiro – apesar da recente queda econômica.

Por Siobhan O’Leary

O governo brasileiro pode ser o maior comprador de livros do mundo. Certamente é o principal cliente dos livros publicados no mercado doméstico – e isso é uma tendência em crescimento em um momento em que a nação emergente reúne esforços para fortalecer a economia e melhorar a qualidade de vida de seus quase 200 milhões de cidadãos. Em 2012, as vendas de livros no Brasil alcançaram um faturamento de cerca de US$ 1,85 bilhões, quase um terço dos quais foram de compras governamentais para material de educação. Para incentivar uma mudança do “brain drain” – i.e., perder brasileiros brilhantes para outros países que estariam oferecendo melhores oportunidades para “brain gain” – o Brasil está investindo seriamente em todos os aspectos da educação, do conteúdo à infraestrutura e todo o resto entre os dois. No final do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou um novo plano educacional que deverá aumentar o gasto público com educação em 10% do PIB até 2020, proporcionalmente o maior orçamento para a educação do mundo. Todo esse investimento parece ter um impacto. Segundo uma pesquisa sobre educação superior do Ministério da Educação (MEC), o número de alunos nas universidades brasileiras e faculdades aumentou 110% nos últimos dez anos, de 3 para 6,5 milhões. É por isso que a Feira do Livro de Frankfurt decidiu dar foco ao Brasil, criando a série de conferências CONTEC Brasil.

Fica subentendido que este é um ambiente fértil para investimento e envolvimento estrangeiros. A educação é, particularmente, um campo promissor. Editoras estrangeiras como Wiley, Thomas Nelson e a espanhola SM já começaram a investir no Brasil há muito tempo – e continuam, apesar da recente queda da economia. Uma empresa que vem aumentando a marca no mercado brasileiro nos últimos anos é a Enciclopédia Britannica. Segundo Michael Ross, o vice-presidente sênior e gerente geral para a educação, a Britannica vê o Brasil como um país muito importante estrategicamente, assim como qualquer empresa operando na região da América latina. “Reconhecemos que investir no mercado brasileiro é essencial para nossa presença na região a longo prazo”, ele diz. “O Brasil é um país grande e sofisticado, que valoriza muito o avanço educacional”.

Apesar da Britannica estar presente no Brasil nos setores impressos e de DVDs há muito tempo, a empresa – que se dedica exclusivamente ao digital desde 2012 – formou uma parceria no final de 2009 com a parceira em distribuição DotLib, para criar uma solução de ensino suplementar. A parceria fez parte de um projeto lançado em 2008 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nivel Superior (CAPES), uma divisão do MEC, responsável por impulsionar o desenvolvimento professional de professores a nível básico e médio no Brasil.

A CAPES estava procurando e financiando ferramentas e recursos para ajudar a aumentar o conhecimento dos professores e melhorar suas técnicas de ensino. De acordo com Michael, o portal de ensino digital da marca, a Britannica Online School Edition, foi escolhida como modelo para o novo produto. Para produzir algo que fosse de encontro às necessidades dos estudantes brasileiros, a Britannica chamou consultores locais e especialistas em conteúdo, assim como a CAPES, para entender melhor as escolas de ensino básico no Brasil. O resultado foi um novo recurso de referência para turmas do jardim de infância e primário, chamado Britannica Escola Online.

Apesar do enorme envolvimento do governo no ecosistema educacional brasileiro, normalmente a adaptação do conteúdo para o mercado local tem uma abordagem relativamente independente. “Mas no caso da Britannica Escola”, explica Michael Ross, “foi uma cooperação mútua, para trazer o melhor conteúdo digital para o estudante. Independentemente de sua situação financeira”. Mais de 25 milhões de estudantes têm agora acesso ao produto, que é apresentado inteiramente em português e comporta muitos recursos disponíveis na edição escolar em inglês, como artigos de enciclopédia, uma Zona de Aprendizagem para alunos pré-Jardim de Infância, um espaço de trabalho, jogos interativos e recursos multimídia. Além dos recursos editoriais da própria Britannica, ele contém material editorial e de aprendizados (incluindo vídeos) que, segundo Michael, estão correlacionados ao currículo brasileiro.

As dificuldades de entrar no mercado brasileiro: taxas, impostos, infraestrutura.

Apesar dar vantagens óbvias, entrar no mercado brasileiro – mesmo com o apoio do governo – tem seus desafios. Primeiro, não há um sistema centralizado de distribuição de conteúdo educacional digital. Taxas e impostos são altos, especialmente para empresas estrangeiras, que não têm escolha a não ser trabalhar com distribuidores locais para superar barreiras legais e comerciais. Em seguida existe a questão de se assegurar que os estudantes consigam de fato ter acesso a conteúdo de alta qualidade – e ainda existem serios problemas de acesso no Brasil que precisam sem tratados. “Apesar de nao estarmos diretamente envolvidos na construcao de infraestrutura no Brasil”, disse Michael, “estamos colaborando com varios parceiros que providenciam hardware, afim de ajudar a garantir que estudantes brasileiros recebam informacoes segura, util e precisa durante os anos de formacao”. Mas a infraestrutura e as necessidades dos alunos variam muito de regiao para regiao. Criar conteudo que atende todos os estudantes no Brasil ‘e apenas o primeiro passo. “Cada estado e regiao devem abordar a questao da tecnologia na educacao de forma diferente”, disse Michael, complementando que a situacao atual do sistema educacional brasileiro dificulta a igualdade de acesso a conteudo digital. Mas esse ‘e o objetivo final. “Nao importa o que se fa’ca”, ele explica, “e nao importa em que estagio esteja no momento, precisamo considerar a maneira como o hardware, software e treinamento para ensino sao implementados – e abordar os tres com a mesma paixao”.

Conheça Michael Ross

Michael Ross ‘e o vice presidente senior e gerente geral da Britannica Digital Learning. Ele ‘e responsavel pelas vendas e atividades de marketin na America do Norte e EMEA e trabalha junto com os times de desenvolvimento de produtos da Britannica para identificar e agir em novas oportunidades em produtos educacionais de alta qualidade. Antes, ele foi vice-presidente executivo e editor na World Book (uma divisao da Houghton Mifflin), e Time-Life Books. Michael mora com a familia em Highland Park, suburbio de Chicago. Voce pode encontrar Michael Ross na serie de conferencias CONTEC Brasil, onde ele vai dar a palestra principal sobre as ultimas tendencias em educacao, ou entre diretamente em contato: mross@eb.com.

Entrevista de Vibhu Mittal

Vibhu Mittal está entusiasmado com a sua participação na Contec Brasil: “A Feira do Livro de Frankfurt é um evento de alto nível e realizar outras conferências atreladas a ela é muito positivo, pois permite que as pessoas participem de ambos os eventos mais facilmente, agregando assim valor para todos”. Seu tema na Contec será debater com outros especialistas os novos paradigmas para a educação, principalmente o aprendizado social no contexto da sala de aula do ensino fundamental e médio. A Edmodo é uma plataforma on-line que permite que professores e alunos se conectem e colaborem em um ambiente de aprendizado social e seguro. Essa plataforma possui mais de 31 milhões de usuários no mundo inteiro. Ele é autor dos livros Generating Natural Language Descriptions with Integrated Text and Examples (Gerando descrições de linguagens naturais com integração de textos e exemplos), da Editora Lawrence Erlbaum Publishers (EUA) e Assistive Technology and Artificial Intelligence: Applications in Robotics, User Interfaces and Natural Language (Tecnologia de assistência e inteligência artificial: aplicações em robótica, interfaces de usuários e linguagem natural). O chefe de pesquisa da Edmodo vê uma demanda crescente por ferramentas de aprendizado móvel: “É a parte que cresce mais rapidamente da curva de demanda, globalmente. A aprendizagem digital depende muito da motivação por parte do usuário, do acesso a bom conteúdo e habilidade do aplicativo de engajar o usuário. Ter uma comunidade forte para complementar (colegas de turma, amigos ou família) torna o processo mais eficiente”, analisa.

 

Entrevista de David Sánchez

“Sou um otimista digital”, diz David Sanchez
Por Ivani Cardoso
David Sanchez é engenheiro de telecomunicações com experiência em startups e internacionalização de uma empresa de software espanhola bem sucedida. Ele participará da Contec Brasil no painel Acesso é tudo. Há anos ele esteve no Brasil em um projeto de gestão de redes de telecomunicações junto à IBM, em Campinas. David diz que sua empresa está dando os primeiros passos para começar aqui um novo modelo de negócios e pretende encontrar pessoas interessadas em representar a companhia no País. A leitura da obra “The Cluetrain Manifesto” abriu novas portas em seu trabalho e partiu em uma aventura para criar a 24symbols com mais três amigos. Ele é responsável pelas vendas e relações com editoras, gosta do que faz, conhece gente interessante na indústria editorial e costuma passar noites em claro pensando em novas direções estratégicas para seu negócio. Também é professor associado da universidade Carlos III, de Madrid. Entre seus objetivos está criar algo que pode trazer muito orgulho no futuro e construir relações humanas de verdade nos negócios.
Confira a entrevista na íntegra:

Como surgiu sua vocação para Engenharia na área de Telecomunicações?
Não sou um engenheiro muito profissional, realmente creio que tenho mais mente mais voltada para a área científica. Desde muito pequeno eu me interessava muito pelo que ocorria dentro desses dispositivos que se chamam ordenadores.

A partir de quando começou a se interessar por startups?
Eu vinha acumulando frustrações pela rigidez no trabalho em organizações em que você se sente apenas uma parte do equipamento que você não consegue controlar. Uma startup me permite viver o trabalho de uma forma diferente e gera um envolvimento pessoal muito maior.

Como está essa área atualmente? Está crescendo em todo o mundo?
Certamente. Em lugares onde a crise econômica está atingindo mais duramente há uma consciência coletiva de que o futuro é criar valor para você mesmo montar uma empresa.

Quais são os países mais adiantados na criação de startups?
Eu não conheço o suficiente para responder com autoridade. Sim, eu conheço bem o talento e a criatividade no meu país, mas também conheço as dificuldades que os empreendedores encontram. Fala-se muito de promover o empreendedorismo, mas o ecossistema realmente não favorece. Não falo apenas de financiamento, mas esse é certamente o problema fundamental. A nossa história como uma empresa poderia ter sido muito diferente se nós estivéssemos em outro lugar.

Há muita diversidade em startups na área educacional?
Sim, é uma área de uma enorme atividade. Todo mundo está consciente de que a formação educacional vai passar por um giro de 180 graus. Não vai permanecer vestígio de professor de classe magistral e a formação será muito mais participativa.
A tecnologia acaba por afastar as pessoas, tornando os relacionamentos mais distantes?<
Não creio. Ela também abre espaços de colaboração antes impensáveis. Segundo um dos meus sócios eu posso dizer que me considero um otimista digital, e gosto muito de estar vivendo um momento em que tudo está mudando.

A Internet e as redes sociais afastam crianças e jovens da leitura?
A tecnologia permite chegar a mais leitores e em formas incrivelmente atrativas que vão muito mais além dos livros digitais que existem atualmente, no entanto é certo que a leitura atual no ambiente digital deve competir com outras formas de entretenimento que existem menos dedicação e menos esforço. Nós, que estamos nesse setor, não devemos ficar presos à nostalgia nem buscar inimigo em casa. A leitura é a grande batalha e que isso passa por fazê-la atraente e competitiva nesse tempo de entretenimento digital.

Como está na Espanha a experiência de unir a tecnologia ao ensino?
Está em seus primeiros passos, mas muito efervescente. Conhecemos algumas experiências muito interessantes neste âmbito, centradas na escola particular, e em nossa empresa, 24symbols, estamos apostando para contribuir com a nossa parte para desenvolver planos e promover a leitura digital. Acho que o curso que começa em 2014 será lançado para tentar e em 2015 para decolar.

Acredita que os professores estão acompanhando a tecnologia na sala de aula?
Eles precisam de algo mais do que a tecnologia. O sucesso dependerá de sua formação e envolvimento para adaptar novas formas de ensinar em suas classes e incentivar e não apenas dirigir, a aprendizagem autônoma de seus alunos.

Como funciona a sua empresa?
Funciona com a lógica de uma startup. Há uma visão muito clara do que desejamos e muito diálogo para propor e compartilhar propostas. Em 24symbols se fala e se discute muito, fazemos e fazemos, mas as abordagens são corrigidas se for preciso. Temos muita agilidade para lançar iniciativas que em outras empresas exigiriam semanas para aprovação e mudança. Acho que ficamos muito cansados de gurus que apenas falam, mas nunca fazem nada.

Como é o seu trabalho com as editoras?
É muito interessante. É preciso explicar um novo modelo de negócio e convencê-las de que vale a pena apostar nele. É um trabalho muito estimulante e há pessoas incríveis no setor.
Como está o mercado de e-books em seu país?
Ainda é pequeno, mas está crescendo. Há plataformas de todo tipo (temos na Espanha todas as grandes empresas de e-commerce) e temos sido pioneiros a nível mundial em propor modelos de assinaturas, mas as vendas estão crescendo com menos rapidez do que gostaríamos. Mas de novo, volto a dizer, sou muito otimista.

As editoras têm pessoal capacitado nessa área?
Capacitado sim, há bons profissionais no setor, mas é preciso que esses profissionais tenham a consciência de que a natureza do seu trabalho vai mudar. Esquecer o passado e reciclar-se será inevitável. Também é preciso abrir as empresas a pessoas de outras áreas, principalmente deste mundo da tecnologia.

Entrevista de Jorge Proença

Gamificação, um dos temas da CONTEC Belo Horizonte
Por Ivani Cardoso
A Feira do Livro de Frankfurt realizará a CONTEC Belo Horizonte no dia 18 de novembro, dentro da Bienal do Livro de Minas, das 9h30 às 13h30. Esta será a quinta edição da Conferência sobre Educação, Tecnologia, Conteúdo e Mundo Editorial no Brasil e terá a Gamificação como um dos temas principais. E não por acaso. Como afirma Jorge Proença, um dos palestrantes e cofundador da empresa Kiduca, a tecnologia e os games podem tornar os processos educacionais mais produtivos e mais baratos. Essa tendência é uma realidade e o nosso sistema de educação precisa mudar e ficar mais próximo do mundo em que os alunos estão vivendo. Pesquisa recente da M2 Intelligence mostra que a gamificação movimentou US$ 450 milhões em 2013, e deve chegar aos US$ 5,5 bilhões em 2018. Outra pesquisa, a do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos, registrou que, até 2020, 85% da nossa rotina será baseada em elementos comuns em games, como pontos, recompensas e medalhas. Na área empresarial, os números também são promissores. Segundo a revista Forbes, 70% das duas mil companhias mais poderosas do mundo terão ao menos um aplicativo gamificado até 2015. Já a consultoria M2 Research diz que, no mesmo ano, as companhias investirão US$ 1,6 bilhão nesse mercado somente nos EUA. Com todos esses números, o painel sobre a Gamificação promete. Nesta edição entrevistamos Jorge Proença que antecipou algumas informações importantes sobre o tema e garante: “Os games ajudam os alunos a aprendem mais e melhor.” Para os interessados em participar da CONTEC Brasil Belo Horizonte as inscrições são gratuitas pelo site www.contec-brasil.com

Como você define a gamificação?
Gamificação é utilizar elementos de “game design” e a mecânica de jogos para resolver problemas e gerar soluções. A gamificação é um novo paradigma para o ensino-aprendizagem ficar mais dinâmico e interativo.

A área de tecnologia não para de crescer. A gamificação tem acompanhado esse crescimento?
Eu poderia dizer que gamificação é um poderoso combustível da tecnologia. A indústria da tecnologia tenta gerar uma demanda (tecnologia disponível e prometida) que pouco é absorvida pela sociedade. A gamificação torna a aplicação da tecnologia mais realista e gera um valor agregado ao seu uso. Por isso a tendência é a gamificação acompanhar o crescimento da tecnologia.

A gamificação está crescendo mais em que áreas do conhecimento?
A gamificação está acontecendo em muitas áreas simultaneamente, mas algumas áreas estão absorvendo e aplicando de uma forma mais intensa. São elas: educação, saúde e trabalho (treinamento de RH).

As grandes empresas mundiais também estão utilizando a gamificação para obter melhores resultados no trabalho?
As grandes empresas e os grandes líderes descobriram que o uso da gamificação torna seus clientes mais fiéis e seus colaboradores mais produtivos. Por isso, grandes corporações estão adotando técnicas de gamificação em alguns processos chave. Defendo que, no futuro, algumas empresas terão um departamento de games e alguns game designers arquitetando ações gamificadas nas empresas.

Há pesquisas mostrando os benefícios do uso da gamificação nas escolas?
Infelizmente, no Brasil temos poucas pesquisas na área de educação como um todo. Já existem algumas pesquisas sobre o uso da tecnologia e o game aparece entre os preferidos dos alunos dos anos iniciais (CETIC).

Como está esse processo no ensino brasileiro? E no Exterior? Em que países essas plataformas são mais utilizadas?
O mercado brasileiro ainda está engatinhando em termos de plataformas gamificadas. Poucas empresas começaram a investir nesta área e a maioria delas são “Startups”.

O termo gamificação muitas vezes é entendido apenas como a introdução de games, pontuação e prêmios. Na área educacional esse pensamento existe?
Infelizmente, na área educacional a gamificação ainda é sinônimo de entretenimento. Muitos tabus a respeito de competição ainda são mantidos. Por isto, trabalhamos para desmistificar a gamificação no ambiente escolar e demonstrar que esta nova “linguagem” pode proporcionar um excelente cenário de ensino-aprendizagem onde todos ganham: aluno, professor, coordenador e dirigente.

O Governo tem iniciativas nessa área nas escolas públicas?
Ainda são muito incipientes as iniciativas governamentais. O MEC recentemente abriu um edital para ODAs (Objetivo Digitais de Aprendizagem) no qual os games estão incluídos.

A linguagem dos games faz com que a chamada Geração Y se interesse mais pela aprendizagem do conteúdo escolar?
As nossas experiências (mais de 3 anos e 15.000 alunos) demonstram claramente que a linguagem dos games motiva o aluno a aprender cada vez mais. A geração Y nasce conectada, precisa de ferramentas interativas e encontra nos games essa experiência.

No Brasil há prêmios específicos para iniciativas nessa área?
Nos últimos meses vários editais estão contemplando games como um segmento importante. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Cultura têm valorizado e reconhecido o game como uma importante inovação no mundo contemporâneo. (A Kiduca foi contemplada nestes dois que eu citei).

Quais são as maiores dificuldades para que as Startups levem suas plataformas tecnológicas para as escolas brasileiras? Os governos têm facilidade para comprar tecnologia das empresas que criam plataformas educacionais?
A grande dificuldade das Startups é a quebra de paradigma numa área muito tradicional cuja formação ainda não contempla o uso de tecnologia e a linguagem dos games como item fundamental. É necessário levar o conceito e gerar a demanda na academia, nas escolas e no governo.

Quais são as novidades da sua empresa nessa área?
Estamos trazendo várias inovações e uma plataforma completa no processo de ensino-aprendizagem: AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), Avaliações, Personalização e Tutor Virtual. Além do uso no laboratório também incentivamos o uso nas lições de casa e na sala de aula. Lançamos hardwares (Arcades/Joysticks), aplicativos para tablets e celulares que facilitam a realização de aulas interativas.

Quais são os temas mais utilizados na criação das plataformas educacionais?
As plataformas educacionais estão priorizando o estudo de matemática e português (áreas prioritárias na visão geral dos educadores).

O custo ainda é muito alto?
A tecnologia possibilita o uso em larga escala e com baixo custo. Não tenho dúvida em afirmar que a tecnologia e os games podem tornar os processos educacionais mais produtivos e mais baratos. Enquanto eles forem encarados como complementares serão encarados como gastos extras, enquanto que o correto seria que eles fossem aplicados como investimentos para melhorar o resultado final.

Entrevista de Pablo Arrieta

Professores não devem temer explorar novos territórios
Por Ivani Cardoso
Na CONTEC Belo Horizonte, marcada para o dia 18 de novembro, durante a Bienal do Livro de Minas Gerais, o professor, designer, arquiteto e consultor em tecnologia Pablo Arrieta, da Colômbia, será um dos palestrantes e vai falar sobre os novos territórios digitais que podem ser explorados pelos professores neste momento de muitas mudanças na sala de aula. Seu conselho para os educadores é que eles devem perder o medo de explorar novos territórios no trabalho profissional na escola e na vida pessoal. “Devemos atuar com nossos alunos com a tranquilidade de quem utiliza permanentemente esses dispositivos no cotidiano. Espero que minha participação na CONTEC motive-os para continuar curiosos perante as transformações que estão ocorrendo”. Para ele, educar é abrir as alas das novas gerações sabendo que são elas que vão manter o nosso voo. E completa analisando o futuro: “Devemos continuar como no passado, ensinando da melhor maneira hoje quem vai prosseguir o caminho amanhã, em um mundo que não será o mesmo que conhecemos como professores. O importante é não perdermos a capacidade de nos surpreender e tirar proveito do que aparece, assim como a maneira como contextualizamos nosso trabalho determinará o sucesso de qualquer esforço. E podemos trabalhar em grupo e muito melhor. Pablo Arrieta atua em várias frentes. Arquiteto por formação, pela leitura e por desenhar desde criança, designer por vocação, fotógrafo e amante de música por obsessão, atualmente ele também trabalha como professor e consultor da Apple para questões de Educação e Tecnologia. Desde o início de 1995 Pablo está envolvido em design digital e desenvolvimento na web. Desde 2008 tem participado ativamente na evolução do mundo editorial de fala hispânica. Pablo defende mudanças na lei de direitos autorais e quando o assunto é livro digital não titubeia: Não formamos leitores para o meio impresso ou digital, mas sim seres humanos capazes de ler e entender o conteúdo deles, decidindo como querem fazê-lo de acordo com as inúmeras condições externas”, afirma.

O que é e como funciona o Coletivo Red Para Todos?
É uma iniciativa que surgiu como resposta aos planos do governo colombiano de controlar a Internet. Seguindo a linha de SOPA, PIPA, da Lei Sinde e outras leis reguladoras do uso da Internet como parte de acordos firmados com os Estados Unidos, o governo colombiano implantou uma série de reformas buscando limitar a pirataria de material protegido por direitos do autor, que chegava a por em risco inclusive a liberdade de expressão e a capacidade de inovação em nosso país. Red Para Todos é formada por membros da sociedade interessados em preservar os benefícios que a Internet havia trazido para as nossas vidas. A partir de diferentes setores (desenvolvedores, indústria, escolas, estudantes) e com interesses diversos (software livre, plataformas de comércio, seguridade, direitos humanos etc), seus membros propõem ideias ao governo e as expressam nos fóruns em que participamos. No início foi o tema dos direitos de autor que nos juntou, mas rapidamente as conversações evoluíram para a questão dos direitos humanos e sua relação com o meio digital, com a privacidade e a segurança. É um grupo de organização horizontal onde o importante é entender nossa vida digital como um novo campo para o desenvolvimento da cidadania, além de contar com as possibilidade de participar e permitir as diferenças, pois vemos nelas o motor do progresso. Com muito êxito, o coletivo tem sido protagonista em deter algumas das propostas de lei, ampliando a discussão e permitindo que a sociedade se interesse por esses temas que são novos para muitos colombianos.

Em seu país as bibliotecas e a leitura são muito valorizadas. Como estão os índices de alfabetização e interesse pela leitura?
Foram realizados avanços e podemos destacar o trabalho e o valor das bibliotecas em nossa sociedade, mas ainda há muito por fazer. Além dos números que temos, tão úteis para os políticos e seus informativos de gestão, a Colômbia continua sendo um país onde se lê pouco e se compreende menos ainda. As pesquisas mais recentes sobre compreensão de leitura são alarmantes pois mostram que é difícil para os colombianos entender claramente os textos. De que nos serve ler muito se não conseguimos aproveitar este ato? Por isso digo que ainda há muito por fazer.

Ainda é importante incentivar a leitura dos livros impressos ou os professores devem concentrar esse trabalho no digital?
A discussão entre leitura digital e impressa não deveria ocorrer. É importante que os professores abordem o tema da leitura, sua importância e difusão, reconhecendo os benefícios e os riscos de cada superfície onde ela ocorra. Não formamos leitores para um desses meios e sim seres humanos capazes de ler e entender o conteúdo deles, decidindo como querem fazê-lo de acordo com as inúmeras condições externas. É muito diferente encarar o tema da leitura em um país desenvolvido onde há livrarias e bibliotecas em todas as cidades e fazê-lo em nossos países emergentes onde há dificuldades para que os livros cheguem em todas os municípios. Para uma criança que mora fora de uma cidade, mais importante do que decidir sobre papel ou tela é a possibilidade de fazê-lo. A atitude do professor para a leitura é mais importante que o formato e onde se tem a oportunidade para ler.

Quais são os limites, em sua opinião, para a utilização da Internet e das redes sociais na escola?
Há temas de privacidade e de idade que são importantes no momento em que abordam as redes sociais na infância e na juventude. Enquanto os alunos são eficientes com os dispositivos, muito possivelmente não têm conhecimento dos riscos a que estão expostos, não têm essa clareza. Assim, os professores podem ser guias nessa área, tentando gerar atividades em que a socialização de temas e conteúdos seja interessante. Ao utilizar as redes em sala de aula, deveriam levar a aprendizagem a outros momentos fora da escola e de maneira mais atraente do que as tarefas tradicionais. Se há essa possibilidade de estabelecer a comunicação com os alunos dentro de alguma rede, é possível incentivar atividades extracurriculares que sejam úteis e inspiradoras. Da mesma forma dentro de aula é possível debater sobre o uso das redes na vida dos alunos. Assim da mesma forma em que os meios de comunicação foram introduzidos em nossas classes, agora é hora de abraçar a mudança e conversar com as crianças sobre essas questões que ocupam tanto espaço em seus dias.

Quando começou a ler? Como se interessou pela leitura? Alguém incentivou?
Em casa meus pais nos deram um exemplo de leitura, mas desde que comecei a ler (aos 4 anos de idade), minha mãe se encarregou de converter essa atividade em algo prazeroso. Semanalmente, se nós tivéssemos nos comportado bem, ela nos dava um livro ou história em quadrinhos que mantinha trancados em uma gaveta. Não eram livros novos mas faziam parte de sua coleção quando era pequena e estavam carregados de surpresas. Algumas vezes aparecia uma HQ de Archie, outras um conto de fadas e outras um do Super-homem. Conforme fomos crescendo os prêmios deixaram de ser tão constantes (pois os livros iam terminando) e as HQs começaram a ter um novo desafio pois estavam em Inglês. Assim, acompanhado de um dicionário, passei muitas horas lendo Mad Magazine, Sad Sack e tantos outros, com tanta vontade que nunca precisei aprender Inglês. Com muita dor chegou o dia em que o armário estava vazio, porém nossa biblioteca estava repleta de volumes preciosos (conservo ainda). Acima de tudo, nossa vida na leitura estava assegurada.

Estamos vivendo em um mundo digital em que muitas vezes os alunos sabem mais do que os professores. Como esses professores devem proceder para continuar à frente do processo educacional?
Eu gosto de brincar e dizer que a resposta a esta pergunta é encontrada assistindo ao último filme de James Bond. Em Skyfall o agente secreto enfrenta os mesmos desafios experimentados por muitos professores: pela primeira vez quem dá as armas ao misterioso Q é um garoto imberbe. Logo no início Bond se dá conta de que um necessita do outro. Enquanto o garoto de óculos é um gênio em dispositivos, o agente é único que sabe usá-los na prática. Sabemos que a melhor maneira de lidar com a mudança é reconhecer as limitações de cada um e trabalhar em conjunto para alcançar os melhores resultados possíveis. As crianças precisam de um guia especializado, o professor, mas eles ficam felizes se puderem dar uma mão para acelerar este passeio. Temos de aprender a fazê-lo e torná-lo divertido.

Quais são os maiores desafios na utilização das inovações tecnológicas na sala de aula?
Um dos maiores desafios é acreditar que basta implantar a tecnologia. Em muitas escolas se percebe como obrigam os professores a usar as ferramentas digitais que se tornam requisitos complicados, que nada agregam ao processo educacional. Sempre que possível, o professor deve ficar livre para decidir quando usá-las sem que sejam um limite para as suas competências pedagógicas. Mais do que ferramentas, devemos fazer das inovações tecnológicas instrumentos que estejam disponíveis e ampliem nossas capacidades. Não é porque um assunto é apresentado em uma tela que se tornará mais atraente para os alunos, da mesma maneira que tocar uma música em um sintetizador de última geração não é garantia de conseguir cativar os jovens. Nós devemos ser capazes de utilizar a tecnologia como uma ponte para o conhecimento, não como o fim do percurso.

O sr. acredita que a criação de comunidades de aprendizagem para a formação dos professores é uma boa ideia?
É uma excelente ideia e quanto mais trabalharmos dessa forma interdisciplinar será melhor. O grande desafio é aprender a usar a tecnologia de forma eficaz, e um erro que pode ser cometido é nos concentrarmos em exemplos que ocorrem em nossa área de interesse e nada mais. Isto é, se eu ensino idiomas, só vou me interessar por idiomas ou temas semelhantes. Este momento, já que tudo é digitalizado, é bom para se aprender com outros professores e suas experiências, independentemente da sua área de trabalho. Então, pessoalmente, cada professor pode perceber o que poderá funcionar em sua sala de aula. Na minha vida pessoal como professor universitário venho tentando aprender todo o tempo com outras pessoas, sejam ou não professores, e levar seus exemplos para minha sala de aula. E muitas vezes eu consigo obter bons resultados também. Outro ponto interessante é que esses conhecimentos podem ser internacionais. Na newsletter da CONTEC muitas vezes descubro temas da Europa, EUA e América do Sul que me interessam e me fazem pensar. Da mesma forma, uma rede de professores atraente deve incentivar essa conversa global, porque, apesar de cada país e região ter suas peculiaridades, não existe um modelo único e há um mundo de professores que experimentam e conseguem resultados.

Quais são as principais ferramentas tecnológicas que estão contribuindo para a melhoria da educação?
Colocaria a Internet em primeiro lugar pois é a principal conexão de todos os nossos interesses e esforços. Depois mencionaria a capacidade, cada vez maior, de processamento das máquinas com as quais contamos. Há décadas, quando estava começando a atuar como desenvolvedor digital, só alguns profissionais tinham a possibilidade de contar com máquinas suficientemente poderosas para consumir e criar conteúdo, algo que hoje em dia é uma característica básica. Finalmente, é preciso reconhecer o aparecimento de um mercado cada vez mais maduro e bem equipado. Mesmo que a oferta de materiais que podem ser utilizados por educadores em suas atividades pedagógicas não esteja no nível que se espera e ainda menos em nossos países, é claro que já se conta com grande quantidade de materiais que podem ser utilizados nas atividades pedagógicas. A indústria deve se desenvolver mais ainda, mas é algo que vai ocorrendo diariamente.

Como motivar os professores para a leitura, uma vez que eles são importantes no desenvolvimento do hábito da leitura entre crianças e jovens?
É fundamental que incentivemos a leitura mas não apenas nos textos. Os jovens de hoje estão expostos a toneladas de mensagens que chegam em múltiplas linguagens: impressa, sons, vídeo e outras. Sabemos que o texto e fundamental e seguirá sendo, mas para poder garantir sua correta utilização devemos reforçar o papel de outras formas narrativas e incluí-las nas atividades como HQs e fotografia ou facilitar para que os alunos desenvolvam interesse pela leitura em outros idiomas. No mundo atual, a possibilidade de baixar músicas gratuitamente faz com que muitos garotos compreendam conteúdos em Inglês. Atividades como videogames e a capacidade de fazer programações contribuem com esse interesse. Incentivar essas possibilidades dará ferramentas de compreensão muito interessantes para as novas gerações capazes de conversar hoje com quem queiram graças às redes sociais.

O professor de hoje está preparado para essa geração de nativos digitais?
A estas alturas, deveria estar, é uma questão prioritária em nossa realidade contemporânea. Negar essa condição seria um erro tanto para os professores quanto para os alunos. Devo reconhecer que não gosto do conceito de "nativos digitais" pois me recorda outros tempos e estilos de colonização. No entanto, se querem usar essa analogia é bom lembrar que ao longo da história os nativos têm sido vistos de maneira muito positiva com a chegada de imigrantes ao seu território. Nesse caso, o professor é um imigrante em sua capacidade para abordar a mudança e conseguir conversas interessantes com esses “nativos” e mostrar seu valor. Voltamos ao exemplo de Bond que mencionei antes.

Como os pais devem participar do processo educacional?
Eles devem confiar e colaborar, entendendo que há professores trabalhando pelo melhor resultado de seus filhos, com seu próprio exemplo e atitudes. O comprometimento com a vida diária depende muito do que se pode obter na educação. Os pais devem ser participantes ativos que compartilham e exijem de seus filhos.