A livraria é um ser vivo

Por Ivani Cardoso

No meio da crise no mercado editorial, o editor e livreiro Alexandre Martins Fontes, também diretor da Câmara Brasileira do Livro, está começando o ano otimista e com novos projetos, inclusive com a ampliação do espaço de eventos na sede da Avenida Paulista. Lá estão mais de 100 mil títulos para pronta entrega em todas as áreas do conhecimento humano, e os resultados surpreendem: em dezembro, a livraria registrou um crescimento de 56% no faturamento em relação ao mesmo período de 2017. O segredo? “A livraria tem que ter alma, é um ser vivo que precisa ser tratado como tal o tempo todo”, ele diz.

Leia a integra da entrevista:

É importante abrir espaços de convivência nas livrarias?

Na Livraria da Paulista eu constatei como o café é responsável por uma parte importante dos clientes que entram na loja. Virou um ponto de encontro, as pessoas precisam estar juntas. Também tenho essa experiência com a livraria da Doutor Vila Nova, inaugurada há mais de 30 anos. Até agosto de 2018 era uma típica livraria tradicional independente dos anos 80, com prateleiras, livros e um belo acervo principalmente na área de Ciências Humanas. Só com livros nas prateleiras, às vezes quem não quer comprar fica sem jeito de entrar. O café abriu as portas, com ele a livraria convidas as pessoas a passar mais tempo por lá. Vai virando um fundo de quintal da casa e todos começam a entrar sem medo.

Com o café aumentou o movimento?
Sim, estou muito feliz, o movimento está ótimo. Desde agosto, o faturamento da livraria mudou. Eu justifico o crescimento por conta de a livraria ter ficado mais convidativa com o pequeno bistrô funcionando, administrado pelo Mestiço, bem montado e com uma comida gostosa. Mas nesses últimos meses o faturamento da loja também cresceu, as pessoas estão procurando alternativas à Cultura e à Saraiva. O mesmo aconteceu com a nossa livraria da Paulista, que, em certo sentido, virou a bola da vez.

O café é uma boa receita de sucesso?

Não é uma bancadinha pequena montada de qualquer jeito num canto, mas um café mesmo, com espaço para sentar e conversar. E todo o conjunto, além do café: os eventos, as palestras, os clubes de leitura, tudo o que você pode fazer para agregar as pessoas. Nós saímos de casa para comer fora, para ir ao cinema, galerias e museus. Queremos encontrar amigos, ver pessoas. A possibilidade de comprar on-line é maravilhosa, sou consumidor também de Internet, mas você entrar, descobrir outros livros, trocar ideias e falar de livros com quem está do seu lado é uma experiência enriquecedora. Uma livraria física tem sempre razão de ser.

Como está o movimento na livraria da Paulista?

Ela é o nosso carro-chefe, a menina dos olhos. Eu quis fazer ali pelo menos um pouco do que a Cultura fez com perfeição, ao longo de décadas. A proposta é ter uma livraria bonita, bem localizada, ter a melhor equipe profissional possível, bem remunerada e feliz, ter um acervo rico de livros nacionais e importados e o melhor atendimento para nossos clientes. Temos auditório, um café, lançamentos e eventos. Em 2005, quando assumi a livraria, não imaginava que nós cresceríamos ininterruptamente como temos crescido.

Como tem sido esse crescimento?

Em pouco tempo essa livraria se tornou referência e um sucesso cada vez maior. Acho que temos acertado e colocado em prática o que eu sonhei nos últimos 14 anos. Claro que estamos aproveitando o vácuo deixado pela Cultura, Saraiva e Fnac, surfando numa onda positiva. Em dezembro, crescemos exatamente 58% em relação a dezembro de 2017, são valores extraordinários e mostram que estamos no caminho certo.

A crise do mercado editorial já era esperada?

Em janeiro de 2018 não dava para imaginar que a Saraiva pediria recuperação judicial. Sem ver os números não pensei que o problema fosse tão sério, mas quando você procura refletir, fica claro que estamos falando da crônica de uma morte anunciada. O problema com a Cultura foi consequência do que já estava acontecendo, não fui pego de surpresa. Entendo que a crise desses dois grupos não é do mercado livreiro ou do livro, é consequência de uma série de decisões equivocadas que foram tomadas durante anos. O que é triste para o mercado editorial é que estamos falando de duas empresas importantes e tradicionais, que juntas representam mais de 40% do mercado.

Essa situação também se reflete no mercado internacional, não?

Não tem como não influenciar. Se 40% do mercado desaparece (não é exatamente isso, mas na média), as editoras brasileiras deixam de vender para essas livrarias, vendem menos, pagam e compram menos direitos autorais, passam a publicar menos, a viajar menos para as feiras internacionais. Os agentes literários internacionais, os autores internacionais, a indústria como um todo é afetada pela crise.

Como você tem enfrentado os desafios?

Eu tive que fazer demissões e mudanças há algum tempo, como os outros editores fizeram. No outro lado da moeda, como livreiro, eu poderia até dizer: mas de que crise estamos falando? As minhas livrarias estão crescendo. A crise é de gestão dessas duas empresas que cometeram erros, mas estão inseridas no mercado e todos sabemos da crise que o Brasil vive seriamente desde 2015, pelo menos. É de muita irresponsabilidade essas empresas terem permitido que a situação chegasse a esse ponto. O buraco estava sendo cavado há alguns anos.

Acha que esse modelo de grandes redes está fadado ao fracasso?

O Brasil é um país continental e muito mal servido por livrarias, temos milhares de cidades no país sem livrarias. Dentro desse cenário, qualquer livraria que faça minimamente o seu trabalho deveria existir. Eu não acredito muito nesse modelo de grandes redes espalhadas por todo o país, não tenho vocação para isso e nem faz sentido. Você acaba ficando com livrarias sem alma. Uma livraria precisa ter alma, conhecer melhor os seus clientes, ter pessoas à frente que dão o máximo de atenção. A grande rede pasteurizada não consegue oferecer isso para o consumidor final. Acredito mais na livraria independente, que faz um trabalho mais personalizado, que o dono está na loja e conhece o mercado.

Acha que trabalhar com nichos de mercado é importante?

Sim, gosto do modelo de livrarias que se especializam num setor, que têm o foco em uma área, como livrarias especializadas em livros infantis, é um mercado muito interessante e em crescimento. Ou aquelas com foco em literatura, arte e design e arquitetura, livros jurídicos e outros. Eu não tenho esse modelo em minhas lojas, as duas são mais genéricas. Somos editores e publicamos de Filosofia a livros infantis, eu teria dificuldade de manter uma livraria e vender apenas uma parte do catálogo. Da mesma forma, acho uma maravilha trabalhar com eventos segmentados, é preciso se comunicar com todos os públicos. O que me deixa feliz na livraria é que ela é democrática, ela fala com todos os públicos e idades.

Como pode aproveitar sua experiência para ajudar livreiros menores?

Eu há muito tempo penso sobre isso. Se cada um de nós fizer bem feito o que se propõe a fazer, já está fazendo bastante. Se eu puder ter uma empresa saudável, que contrata pessoas, que paga em dia, que cumpre as obrigações, que lança livros de autores que vivem de direitos autorais e assim por diante, em última análise esse é o maior papel que eu posso exercer, inclusive do ponto de vista político.

Seu trabalho pode servir de exemplo?

A minha posição política não se dá porque eu apoio esse ou aquele candidato, e sim na medida em que eu acordo todos os dias para fazer o meu melhor. Essa é a minha verdadeira vocação, estar mergulhado no dia a dia da empresa, tenho o maior prazer no que eu faço. O que você faz, a sua ação coerente é que vale como exemplo. Se o pequeno livreiro olhar para a Martins Fontes da Paulista e se inspirar, como a Cultura dos bons tempos que fez um trabalho excelente por décadas me inspirou, vou ficar muito honrado.

Você está otimista para 2019?

Temos muitos projetos e estou começando o ano muito otimista, por incrível que pareça. Como livreiro tenho todos os motivos para isso, no mês de janeiro em relação a 2018 temos a previsão de superar o crescimento de dezembro na livraria da Paulista, com crescimento também nas vendas on-line. Como editor também estou otimista, não porque entendo que o mercado editorial está uma maravilha, sei que estamos vivendo a maior crise da nossa história, mas fizemos a nossa lição de casa nos últimos quatro anos. Fiz os cortes que precisava fazer e espero vender o suficiente para pagar os nossos custos e levar a empresa para a frente.

Quais os projetos para as livrarias?

Nós estamos investindo em melhorias, há um projeto programado para cobrir o terraço ao lado do auditório para crescer a área de eventos na Paulista. Quero esse ano montar a plataforma na Internet para melhorar os serviços para o consumidor final, para fazermos mais e melhor nas mídias sociais. Como livreiro, quero estreitar mais ainda nossa relação com nossos parceiros, os editores. E manter a qualidade do nosso atendimento, o que passa pelos nossos funcionários.

Como é a seleção do acervo em suas livrarias?

Não dá para minimizar a importância e a dificuldade desse trabalho. Não é só decidir o que está nas livrarias, é uma decisão diária, você vende e precisa repor o estoque  todos os dias. A livraria precisa ter o cânone da literatura mundial, mas ao mesmo tempo deve ter um lançamento comercial mais forte, um livro que está vendendo bem, além do fundo de catálogo e livros de pequenos editores e editores independentes. Nosso desafio é conseguir um acervo o mais democrático possível, mas mais importante é o atendimento que se dá ao cliente.

O que mais incomoda no atendimento em uma livraria?

É normal não encontrar um livro, o que não dá é não resolver o problema do consumidor final e prestar o serviço de ir atrás do livro. É triste, mas ainda hoje é comum o funcionário quando não tem o livro dizer que está esgotado, mesmo sem estar. Quem decide o que vai para as vitrines somos nós, não negociamos espaço em gôndolas, quero ter liberdade de destacar o que eu quiser. Estou fora disso.

Quais os seus conselhos para os pequenos livreiros?

Uma livraria não pode ser engessada. O cliente precisa encontrar todos os dias uma nova arrumação, uma nova seleção. A livraria é um ser vivo que precisa ser tratado como tal o tempo todo. Nós conseguimos fazer isso graças à nossa equipe. Para os livreiros, eu daria alguns conselhos importantes: 1) conhecer o seu público, se está do lado de uma universidade é natural ter mais livros acadêmicos, por exemplo, não pode impor a sua vontade, tem que entender o seu cliente e o que ele quer comprar; 2) não deve abrir mão da qualidade do atendimento e dos seus funcionários, que devem ser bem remunerados e com espaço e autonomia para fazer um trabalho bem feito; 3) conhecendo seu público, fazer o melhor trabalho possível na curadoria, não ficar só no óbvio, ir atrás do livro que é mais uma descoberta, menos conhecido.

E para conseguir isso?

Para isso o fundamental é ser apaixonado pelo que faz. Eu sou contra a venda de outros produtos em uma livraria, chega uma hora em que o espaço vira uma loja de conveniência. O livreiro tem que acreditar no seu produto. As livrarias que fazem um bom trabalho como livrarias, e só como livrarias, têm sucesso. Sempre haverá espaço para quem trabalha bem.

Por que 1984 não é proibido na China
The Atlantic
Amy Hawkins e Jeffrey Wasserstrom
13/01/2019

No inverno passado, depois que o Partido Comunista Chinês anunciou a abolição dos limites do mandato presidencial, Pequim passou a censurar as referências das mídias sociais aos livros “Revolução dos Bichos” e “1984”, de George Orwell. A preocupação do governo era que os ativistas usassem esses títulos para demonstrar que a China estava se movendo em uma direção decididamente autoritária. Mas os censores não se preocuparam em proibir a venda desses textos em livrarias ou on-line. Era – e continua sendo – tão fácil comprar “1984” e “Revolução dos Bichos” em Shenzhen ou Xangai quanto em Londres ou Los Angeles.
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Forbes e New York Times investem em inteligência artificial e voz
Coletiva.Net
18/01/2019

O New York Times e a revista Forbes anunciaram que farão uso de inteligência artificial e assistentes de voz. O impresso, por exemplo, já passou a testar o resumo de notícias diárias via Alexa, da Amazon, e a habilitação do serviço deve ser feita diretamente pelos usuários. Uma vez liberados, devem apenas pedir “Alexa, quais são as notícias?”. Nas sextas-feiras, o NYT também oferecerá um quiz aos usuários sobre as notícias da semana e, aos domingos, um resumo do noticiário.
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As livrarias on-line assumem o controle
The Jakarta Post
Gyanindra Ali
21/01/2019

O surgimento de livrarias on-line e livros eletrônicos on-line conquistou o mundo – e na Indonésia não foi diferente. A livraria e editora independente Afterhours, por exemplo, concentra a maior parte de suas operações on-line. “A distribuição no varejo ocupa uma grande fatia do [nosso negócio]”, disse o editor e produtor da Afterhours, Lans Brahmantyo, ao The Jakarta Post, sobre o motivo pelo qual decidiu se concentrar no comércio eletrônico. “Se há uma maneira de cortar os intermediários entre nossas prateleiras e clientes, por que não?”
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Após 180 anos, pioneiro da HQ ganha dois livros traduzidos para o português
Folha de São Paulo
Ivan Finoti
17/01/2019

Sinopse da obra: em suas desventuras para se aproximar do objeto amado, o monsieur Vieux Bois se envolve em brigas com vizinhos, acaba preso, torna-se eremita e entra em guerra com monges, sendo condenado à fogueira. Mas o “objeto amado” citado no texto não é um cofre cheio de moedas ou um castiçal de ouro, mas sim uma mulher. Trata-se de “Monsieur Vieux Bois”, a primeira história em quadrinhos, desenhada pelo suíço Rodolphe Töpffer em 1827. O álbum revela, em 92 páginas, detalhes da vida europeia em meados do século 19 e, como se viu, dá uma luz de como as mulheres eram tratadas na época. “Há ironia aos amores impossíveis do romantismo e crítica ao catolicismo, na figura dos monges atrasados e intolerantes”, diz o historiador André Caramuru Aubert, que escreve o prefácio.
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Jovens booktubers trabalharão em liceus uruguaios durante 2019
PublishNews Espanha
Redação do PublishNews
16/01/2019

A partir de 2019, cinco booktubers e uma blogueira literária, que colaboram com o Plano Nacional de Leitura desde 2016, receberão remuneração por cada atividade que realizam nos centros educacionais de acordo com o número de horas trabalhadas, conforme explicou a coordenadora do programa, Pilar Barreiro. Jessica Peón, Luciana López, Lucía Zubillaga, Melanie Sanz, Romina Bentancort e Sofía Aguerre terão um calendário de visitas às escolas, formulado pelo Ministério da Educação e Cultura.
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Celulares dão força a novo mercado de audiolivros no Brasil
Folha de S.Paulo
Carolina Muniz
18/01/2019

inda pequeno, o mercado de livros narrados começa a crescer no Brasil com a chegada de gigantes do setor. Em julho do ano passado, o Google Play lançou seu serviço de audiolivros no país. Já a Amazon prepara há pelo menos dois anos a entrada da sua plataforma, o Audible. A Ubook e a Tocalivros, startups nacionais que investem nesse nicho desde 2014, veem a vinda dessas empresas como uma oportunidade de expansão, não como ameaça. As duas startups, aliás, já trabalham em parceria com o Google Play, disponibilizando suas obras na plataforma.
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