Um intecâmbio cheio de inovação

A Feira do Livro de Frankfurt é a maior feira do livro do mundo: são mais de 100 países representados por quase 8 mil expositores em uma área equivalente a cerca de 14 campos de futebol. Em toda essa estrutura, acontecem grandes eventos de networking, importantes ações dos mercados editorial e livreiro e, claro, centenas de negócios são fechados.

Agora, a Feira, que é referência em tendências e inovação, quer estar ainda mais próxima do mercado latino-americano. Isso fica claro quando Marifé Boix Garcia, vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt, diz que quer levar toda essa experiência para fora e que deseja manter relevante na Feira a visibilidade dos mercados de língua espanhola e portuguesa.

Para colaborar esse objetivo e ainda promover um intercâmbio de experiências, duas CONTECs – conferências realizadas pela Feira de Frankfurt na América Latina – serão realizadas ainda neste ano. A CONTEC México, em 19 e 20 de fevereiro, e também a CONTEC Argentina. Confira a entrevista que realizamos com Marifé Boix Garcia e fique por dentro do que acontecerá na primeira CONTEC do ano.

A Feira do Livro de Frankfurt é a maior do mundo e é referência no que se refere a conteúdo e inovação e tem uma parte de sua equipe focada na América Latina. Qual a importância de ter essa equipe voltada para o mercado latino-americano? 

A estrutura da empresa é um pouco complexa e, por isso, a resposta não é tão simples. Nós temos alguns funcionários dedicados à região latino-americana, mas nenhum deles trabalha exclusivamente para essa região. Por exemplo, além de ser responsável pelo mercado latino-americano, eu sou responsável por clientes da Espanha e de Portugal, bem como por projetos da Feira de Frankfurt que acontecem nesses países. Há também as responsabilidades relacionadas a projetos como o Fellowship Programme e o Invitation Programme, aos expositores e ao que chamamos de áreas temáticas, como CTP, Educação, Trade, Cultural Visual, etc.

A estrutura é um pouco complexa, mas toda essa abrangência faz com que as pessoas da equipe conheçam desde as necessidades até as tendências do mercado latino-americano, permitindo assim que a Feira do Livro de Frankfurt atenda melhor os clientes dessas áreas e ofereça a eles a melhor opção para participar da nossa feira e dos eventos que organizamos pelo mundo.

Quais são os objetivos dessa equipe para 2019?

A equipe tem vários objetivos. Para mim, acredito que um dos mais importantes seja manter a visibilidade do mercado de fala espanhola e portuguesa na Feira de Frankfurt. Apesar de as situações econômica e política estarem difíceis e o mercado livreiro dessas regiões sofrer bastante com isso, é realmente importante estar presente na maior feira mundial do livro.

No ano passado, lançamos o Frankfurt Pavilion, em que, pela primeira vez, escritores latino-americanos se apresentaram nesse espaço privilegiado, participando da programação oficial da feira. Em 2019, queremos repetir e, claro, melhorar. Estamos trabalhando para que as editoras dessa região também estejam na programação adicional, em outros espaços na feira e fora dela.

Pensando no exterior, queremos levar um pouco dessa experiência de Frankfurt para fora. Desse modo, realizaremos dois eventos: a CONTEC México, em 19 e 20 de fevereiro, e a CONTEC Argentina.

Estaremos também na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece de 10 a 14 de julho no Brasil, participando da programação na Casa Europa junto a outros países europeus. Para este evento, vamos levar uma programação cultural, mas também profissional.

Já na Europa do Sul, nós começaremos a trabalhar no projeto Convidado de Honra Espanha 2021, pois este ano de 2019 é o mais importante se pensarmos em termos de direitos autorais.

O primeiro evento deste ano será a CONTEC México, que ocorre nos dias 19 e 20 de fevereiro. Como você acha que este evento irá contribuir para o mercado do livro na América Latina?

O maior objetivo dos eventos CONTEC sempre é o intercâmbio de experiências. Por isso, uma das possibilidades do evento é ver pessoas de diversos países junto a palestrantes nacionais que falam em keynotes ou discutem em mesas sobre alguns temas. Ainda temos o formato Meet the Expert, que oferece a possibilidade de conversar um pouco mais, em particular, tirar dúvidas ou apresentar ideias para esses profissionais renomados.

O tema da CONTEC México será Circulação e venda de conteúdo. Qual foi o motivo da escolha deste tema?

Durante a cerimônia da abertura da última CONTEC, que foi na sede da UNESCO, acabamos nos vendo numa discussão sobre o papel das livrarias. Então, durante a conferência, tivemos uma mesa sobre o tema, mas a sensação é que o tempo não foi o suficiente para trabalhar todas as camadas do que estava sendo apresentado. Depois do evento, enquanto realizávamos o balanço dos três dias de CONTEC, pensamos que esse poderia ser o tema para 2019.

Hoje em dia, há inúmeras possibilidades para que o público não apenas encontre o seu conteúdo, mas também se interesse pelo produto vendido. Muitas marcas globais conseguem fazer isso muito bem, mas vemos que, infelizmente, a indústria do livro ainda não consegue se beneficiar com tanta destreza dessa gama de possibilidades. Por que você acha que isso ocorre? O uso ainda tímido da inteligência e dos metadados nesse mercado pode influenciar?

Sim. Que os metadados ajudam a encontrar conteúdo e livros relacionados com um tema já não é novidade. O que não significa que todo mundo usa os metadados da maneira certa. Não é considerado um trabalho atrativo, mas é importante.

Hoje em dia existem ferramentas muito interessantes para avaliar quase tudo. Podemos conhecer os detalhes sobre as vendas e até mesmo medir sentimentos e, assim, entender se o conteúdo do livro agradou ao leitor ou se ele largou uma leitura no meio.  Todas essas informações, quando bem interpretadas, podem nos ajudar a entender como funcionam os títulos publicados pela editora. No melhor dos casos, podem ajudar na elaboração da estratégia da empresa, de vendas ou, por exemplo, de uma linha editorial.

Mas o mais importante é nos perguntar se a equipe que temos é adequada para fazer esse tipo de interpretação ou se é melhor contratar um especialista para realizar este trabalho. Esses são processos que devem fazer parte da gerência de uma empresa. Penso que é preciso questionar e avaliar a estratégia da empresa a cada ano, mesmo se é só para confirmar que se está no caminho correto.

Vemos um movimento grande de editoras assumindo a distribuição de seus próprios livros. Você enxerga isso como algo positivo ou negativo para o mercado?

Várias editoras reclamam que não conseguem o espaço ou um espaço interessante em livrarias tradicionais. Se não têm a possibilidade de vender o livro nesse canal tradicional, precisam de um outro canal para posicionar e vender os títulos. Às vezes é o próprio e-commerce da editora, às vezes, é uma feira realizada por editores. Às vezes, a própria editora trabalha como distribuidora de editores similares de outros países, etc.

Tudo isso é possível, mas também significa que o tempo do editor não é usado para fazer o trabalho de editar (que é o que melhor sabe fazer e deveria ser a prioridade). Acredito que a melhor solução seria que os distribuidores ou os livreiros estivessem bem capacitados e conseguissem distribuir e vender livros melhor.

Falando do livro físico, já existem alguns projetos em que foi criada uma distribuidora para selos menores ou livrarias independentes ou especializadas. Todas elas deveriam incorporar a possibilidade de pedidos ou compras online para também oferecer esse serviço ao cliente local.

Da programação geral da CONTEC México, quais são os principais destaques para você?

Toda a programação é interessante. Começamos com o mundo tradicional do livro em papel com editores e livreiros, passamos a falar de livrarias tradicionais com o objetivo de entender a fórmula do êxito. Depois, damos uma olhada na inovação dos canais tradicionais, seja a distribuição, seja a venda de livros. Continuamos com o livro eletrônico como modelo para todas as editoras, passando pela edição e distribuição digital como estratégia da empresa. Fechamos o primeiro dia com uma olhada nas rotas alternativas de venda, quando a distribuição não funciona. No segundo dia, os temas vão desde o desenvolvimento de audiências, a importância do acesso e o big data até as narrativas transmídia.

Há alguma palestra que você considera imperdível e indicaria a nossos seguidores?

Não destacaria uma só… Dependendo das pessoas, alguns temas podem ser mais importantes que outros. Mas o melhor é conseguir se desconectar do dia a dia e participar do evento como um todo, celebrando essa décima edição de CONTEC com um coquetel e um concerto de jazz no final do dia 20.