Uma boa capa define o futuro de um livro

Por Ivani Cardoso

Fã de Julio Cortázar e Murilo Rubião, Delfin é formado em Jornalismo, Publicidade e Propaganda na PUC Campinas, e há anos atua em várias áreas do mercado editorial. É professor de Design Editorial na LabPub (SP) e Nespe (RJ), além de curador do Cineclube Terracota, em Campinas, e professor das oficinas de arte, criatividade e literatura do Sesc. Já criou mais de 300 capas para livros e compara o trabalho a uma luta de boxe, que preferencialmente precisa ser vencida por nocaute: “Se o leitor foi fisgado, é mais uma vitória para se computar”.

Leia a íntegra da entrevista:

Quando e como começou sua relação com o mercado editorial?

Meu primeiro contato foi quando fui contratado, com 19 anos, para ser crítico de quadrinhos para uma editora de minha cidade natal, Campinas. O trabalho durou nove meses, mas me inseriu nesse nicho de mercado no qual atuo ainda hoje. Um contato mais sério foi quando fui contratado como infografista do jornal Correio Popular, também de Campinas. Nos quase cinco anos em que fiquei na redação, aprendi muito sobre o processo editorial de jornais e revistas, bem como entendi a pressão por prazos e, ao mesmo tempo, a exigência pela precisão.

E com os livros?

Meu contato com o mundo dos livros veio pelo mercado independente, com o lançamento da cooperativa de autores Editores K, na Flip de 2004. Ali, além de publicar meu livro de estreia, também concebi o design de todas as publicações. Este trabalho repercutiu na grande imprensa, abriu para mim as portas do mercado editorial nacional e me impulsionou, alguns anos depois, a fundar meu estúdio de produção editorial.

Em que áreas trabalhou no mercado editorial?

Como designer gráfico, atuo como criador de projetos editoriais, diagramador, letrista de quadrinhos, capista de livros e produtor gráfico. Como jornalista, eu me especializei na área cultural, em especial em conteúdos de cultura pop. Como editor, trabalhei como assistente editorial de quadrinhos na Pixel Media (Ediouro) e coordenador editorial na editora Aleph, além da edição de publicações independentes diversas. Sou tradutor, preparador de textos, revisor, checador de biografias e ghost writer.

Você ainda faz curadoria na área de cinema?

O trabalho como curador começou no Sesc Campinas em 2016 e, depois, se ampliou para um projeto pessoal, o Cineclube Terracota, que em 2019 entra em seu terceiro ano. São processos diferentes: no Sesc, o que faço são curadorias temáticas, ou seja, agrupo filmes interessantes dentro de um mesmo espectro narrativo. Já no cineclube, a minha ideia é a de trazer as pessoas para uma experiência cinematográfica única: elas comparecem a sessões que são secretas, ou seja, não sabem o filme que será exibido até minutos antes da exibição. Em ambos os locais, a experiência é enriquecida por um debate posterior, minha parte preferida

Você tem especialização em Design?

Não formalmente. Sou formado em Publicidade e Propaganda pela PUC-Campinas, e posteriormente, em Jornalismo pela mesma universidade. Eu me dedico ao estudo do design, e isso pode parecer piada, desde os meus dez anos de idade, quando comprei o famoso Manual de Designs, do Clarence Hornung. O estudo das formas e de seus significados me abriu as portas para esse mundo. Acho que todo dia tem algo novo para se ver, um estilo novo para se absorver, ideias novas para nos impactar e continuar moldando meu senso estético, críptico e profissional.

Quantas capas já criou para livros?

Foram certamente mais de 300. Talvez já tenham chegado a 400, falando apenas das aprovadas. Eu nunca fiz a conta certa. Apenas para a Mojo Books, primeira editora 100% digital do Brasil, foram mais de 100 (toda semana havia uma edição nova).

Pode citar algumas?

Algumas das capas que considero importantes, seja por sua visibilidade ou por suas características gráficas, são as da série Fundação, de Isaac Asimov (Aleph); Fahrenheit 451 e Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury (Globo); Extinção de Contratos, livro jurídico da Saraiva, pelo qual fui vencedor da categoria Educação do Prêmio Getty 2012 e finalista do Jabuti 2011; O Sujeito Incômodo, de Slavoj Zizek (Boitempo); Homens em Guerra, de Andreas Latzko (Carambaia); Os Sapatos de Orfeu, biografia de Drummond escrita por José Maria Cançado (Globo); Aracelli, Meu Amor, de José Louzeiro (Prumo); e No Limiar do Silêncio de da Letra, de Maria Lucia Homem (Boitempo).

Qual é o maior desafio na hora de criar uma capa?

Encontrar o melhor modo de comunicar a ideia, respeitando o briefing enviado pela editora. O briefing é a base de tudo, e um briefing errôneo pode levar a resultados estranhos e fora das necessidades do livro. Esse livro também precisa se comunicar diretamente com o leitor, então isso sempre está no centro de meu processo criativo. Tudo é pesquisa, para mim. Desde as informações daquele livro antigo do Hornung até novas tendências que eu tenha visto dias ou horas atrás na internet, tudo entra no redemoinho criativo que acontece na minha mente.

E a prática?

É materializar isso em propostas gráficas aliando técnica e criatividade, mas as duas coisas são basicamente suor e aprendizado. O desafio é condensar essa informação em algo que o leitor rapidamente decodifique e que atraia seu interesse para o livro. Afinal, capas representam a melhor peça publicitária que o livro pode ter no ponto de venda, na grande maioria dos casos. Uma boa capa pode definir o futuro do livro a curto prazo, assim como uma boa lombada pode definir sua sobrevida a médico e longo prazo. A capa é um conjunto delicado de informações e, na maior parte das vezes, como uma luta de boxe que preferencialmente precisa ser vencida por nocaute. Se o leitor foi fisgado, é mais uma vitória para se computar.

O Design Editorial é valorizado pelas editoras e pelo mercado?

Acredito que sim, ainda que eu veja editoras que não falem isso e achatem preços de tabela por anos a fio (há quem pratique hoje o mesmo valor de quase dez anos atrás). O profissional de design deve ser valorizado, ele constrói a linha de frente da batalha que o livro enfrenta na guerra de atenção disputada nas livrarias. O mercado reconhece isso, e boas capas sempre ganham uma boa exposição orgânica. Eu acredito que, mesmo em um cenário preocupante como o atual para as editoras, devido às questões envolvendo as livrarias Cultura e Saraiva, isso não as impedirá de dar o devido valor a seus colaboradores, todos importantes no processo editorial, e isso inclui, é claro, os envolvidos no design editorial.

O Studio DelRey faz que tipo de trabalhos?

É mais reconhecido por seu trabalho com capas de livro, mas aqui se trabalha com todo o espectro editorial. Normalmente é um trabalho artesanal e solitário, mas trabalhos maiores exigem colaboradores. O estúdio tem uma equipe de colaboradores: tratadores de imagem, ilustradores, fotógrafos, revisores e redatores, entre outros profissionais.

Como está sendo sua experiência em rádio?

Boa. Atualmente possuo um programa de rádio na sucursal de Campinas da Kiss FM (107,9 MHz), versando sobre cultura pop e rock. Mas minha experiência com o ambiente sonoro é grande: nas décadas de 90 e 2000 fiz muita rádio universitária e independente, inclusive com um programa que começou na mítica Rádio Muda, sediada na Unicamp e símbolo de radiodifusão independente no Brasil, que depois migrou para diversos formatos digitais, inclusive o podcast (fiz parte da primeiríssima onda de podcasters culturais no País, a partir de 2005). Involuntariamente, fui responsável pelo primeiro podcast de storytelling nacional, chamado Coruja Elétrica, inicialmente veiculado pela emissora digital Radio Elétrica, muita coisa boa sendo criada para ele hoje em dia. Procurem por A Voz de Delirium e Informe do Almanaque do Jovem Fazendeiro para terem surpresas agradáveis a respeito.

Como vê o momento atual do mercado editorial brasileiro?

Preocupante. Não quero me alongar muito nisso, mas acredito que a consignação foi um veneno lento para as editoras. Eu sinceramente espero que este modelo de negócio, que é muito similar a vender fiado, acabe. As plaquinhas contra a venda fiada em padarias são de uma sabedoria imensa, quando pensamos direito sobre o assunto.

Quando começou a gostar de ler?

Aprendi a ler com dois anos de idade, culpa da Vila Sésamo. Eu leio e escrevo desde os quatro anos, eu não consigo me lembrar de um dia na vida em que eu não tenha lido alguma coisa, pois meu pai me comprava um gibi por dia quando eu era criança. Os primeiros livros foram os encadernados luxuosos da Abril Cultural e o primeiro que consegui ler até o fim (a duríssimas penas, confesso, mas eu tinha 8 anos de idade) foi Os Três Mosqueteiros. Minha tia Edna foi mais esperta: me jogou numa livraria e me disse para escolher um livro qualquer. Eu escolhi Peter Pan e Gramática da Emília, ambos na versão do Sítio do Picapau, Amarelo do Monteiro Lobato. Tenho eles até hoje.

Viveria sem a tecnologia no seu trabalho?

Sem o computador, tablete celular e outros aparatos nosso trabalho volta aos anos 1980, 1970.  O mais importante é não ficar para trás, entender que o meio digital veio para ficar e que focar apenas no papel é um erro. Quem pensar assim será o próximo dinossauro gráfico. Eu peguei o fim da era do fotolito e vi vários excelentes profissionais que não se modernizaram perderem a relevância. Estar pronto para tudo no meio digital é obrigação dos profissionais hoje em dia, sem nos esquecermos do passado. Afinal, um dia o fotolito foi tecnologia de ponta.

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